Segundo estudo divulgado recentemente pelo Observatório das Migrações Internacionais, os haitianos ultrapassaram os portugueses em 2013 e tornaram-se o maior grupo de estrangeiros com vínculo formal de trabalho no Brasil. O documento indica ainda que a maioria dos haitianos, nada menos do que 10.901, trabalha em fábricas.

Na América do Norte e na Europa, onde rotas de migração já se consolidaram e são bastante expressivas, um dos argumentos mais repetidos por quem defende políticas xenófobas é o de que estrangeiros vão tomar os postos de trabalho dos moradores locais.

A reportagem questionou Antônio Torres, secretário de Desenvolvimento Social do Acre, sobre essa possibilidade.

“Ninguém toma o trabalho de ninguém. Eles ocupam os espaços que estão vazios. As empresas têm demonstrado que têm mercado de trabalho. Eles vêm para contribuir, com ideias, com um papel social. Vão gerar uma economia local, ajudar o Brasil a crescer”, defende, lembrando que há também quem reclame dos recursos gastos para assegurar a sobrevivência dos imigrantes recém-chegados. “O governo não está descobrindo nenhuma área para poder manter essa estrutura básica.

Faz um esforço a mais para auxiliar os imigrantes na questão de respeito humanitário mesmo, respeito à dignidade humana e à história dessas pessoas que estão fugindo da fome, da miséria e de tantas injustiças.”

A condição de vulnerabilidade social dos novos imigrantes que chegam ao país é um dos temas estudados por Letícia Helena Mamed, doutoranda em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora da Universidade Federal do Acre (Ufac). Durante a 7ª Reunião Científica sobre Trabalho Escravo Contemporâneo e Questões Correlatas, ela lembrou que “o desemprego atinge entre 70 e 80% da População Economicamente Ativa do Haiti”, e que “com uma população de 10 milhões de pessoas, estima-se que apenas 180 mil possuam empregos formais”. Durante sua apresentação, intitulada “Movimento Internacional de Trabalhadores e Exploração Laboral de Imigrantes: Uma Análise da Recente Trajetória dos Haitianos no Brasil”, informou ainda que “80% da população vive com menos de 2 dólares por dia, ou seja, abaixo da linha da pobreza”.


Dívida histórica
Para o assistente social Carlos César Ferreira de Souza, um dos funcionários da Secretaria de Desenvolvimento Social do Acre que atua diretamente com imigrantes no abrigo em Rio Branco, o Brasil tem o dever de garantir os direitos dos imigrantes haitianos e senegaleses que têm procurado o país, até por conta do seu passado escravista. “No passado poderíamos ter tido um respeito maior com os negros.

Os alemães e espanhóis até passaram por dificuldades, mas foram bem tratados naquele momento. Esse é um momento especial para o Brasil, não vai corrigir o que fez no passado, mas é um momento especial”, defende.

Ele diz que em Brasiléia, cidade de fronteira em que os imigrantes eram reunidos antes da criação do abrigo em Rio Branco, presenciou cenas de racismo. “Como a sociedade era atendida nos mesmos espaços, quando um haitiano ia a um centro de saúde era muito discriminado pela população. Ele não é visto como um ser humano”, lamenta.

Damião Borges, funcionário da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre que atuou como coordenador do abrigo de Brasiléia, confirma as agressões reportadas pelo colega. “Teve muito racismo. Eu entrava na internet, tinha e-mail com cada barbaridade. No abrigo, passava gente de carro e dizia: ‘vou soltar uma bomba aí dentro, tem que metralhar esses negros’. A gente ouvia muito isso aí”, relata. Mesmo em Rio Branco há episódios de discriminação. Antonio Carlos Ferreira Crispim, funcionário da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social do Acre, conta que precisou intervir para que um haitiano com o apêndice suturado fosse atendido em um hospital público.

“Os negros, pelo processo que vem desde a escravidão, sofrem muitas discriminações. Isso ainda é muito forte no nosso país, no mundo.

Mas aqui tem espaço para todo mundo”, defende o assistente social Carlos César Ferreira de Souza. “No Acre, os grupos aparecem porque é um estado pequeno, pobre, que tem lá suas dificuldades de conduzir essas condições, esse trabalho, mas em São Paulo, Santa Catarina, no resto do país, não vamos nunca conseguir visualizar essa multidão dessa forma.
Existe pressão política, sempre tem quem fale que se não tem trabalho para brasileiros, vamos dar para os outros?

O Brasil é grande, é rico, tem espaço para todo mundo e essas pessoas com certeza vão colaborar muito para o crescimento e construção do nosso país. Essas pessoas ajudam nesse crescimento.”

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Haitianos e senegaleses têm viajado de Rio Branco para São Paulo de ônibus
Fonte: https://goo.gl/Rrg3v
Crédito da foto: do blog do Altino Machado https://goo.gl/hFu4Bi
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