Haitianos e Senegaleses ultrapassam portugueses e são hoje o maior grupo de estrangeiros com trabalho formal no país

Garota haitiana no abrigo em Rio Branco

Por Daniel Santini (textos e fotos)

Nilson Mourão, o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre,  defende que migração é um direito humano e que quem quer viver em outro país deve ser respeitado.

Por isso, conta que tem ouvido ameaças.

“O componente de xenofobia já está disseminado. Eu encontrei um senhor na rua que me pegou pelo braço e me levou para o canto e botou na boca de outra pessoa o que ele pensa. Ele disse: secretário, tem um pessoal lá no bairro em que eu moro que quer dar uma ‘pisa’ no senhor. Eu perguntei o que eu fiz e ele: ‘Como é que vocês deixam esses haitianos entrarem com ebola? Vocês estão ficando doidos?!’”. Xenofobia é o fenômeno que pode ser resumido como raiva, medo, ódio ou discriminação contra estrangeiros.

Direitos trabalhistas
Para Parise, o ideal seria que o Sistema Nacional de Empregos (Sine), criado justamente para minimizar as chances de violações de direitos e facilitar contratações, assumisse a intermediação entre empresas interessadas em estrangeiros em busca de emprego.
Sem opções, a Missão Paz tem imposto condições para que os interessados em contratar contatem os trabalhadores abrigados.
Os empresários são obrigados a assistir palestras de duas horas; os imigrantes, palestras de quatro horas. Os primeiros recebem orientações sobre os direitos trabalhistas que devem observar.
Os segundos passam por um curso sobre questões culturais do Brasil, recebem informações sobre direitos assegurados na legislação e sobre como denunciar violações.

Entre as orientações, estão inclusive dicas sobre como funciona uma folha de pagamento – não são raros os casos de imigrantes que, inconformados em ver descontos no valor total com os quais foram registrados, vão embora por acharem que estão sendo enganados.

Ao final das palestras, o empregador assina um termo ético falando que está ciente de suas obrigações e que vai respeitar a legislação trabalhista.

Nem todos que participam ou ficam sabendo do processo efetuam contratações. Nas contas da direção, cerca de 1.700 empresas estiveram na Missão Paz só este ano, das quais 500 efetuaram as contratações. As demais desistiram.

 

Porta de entrada da Casa do Migrante da Missão Paz
Se o Sistema Nacional de Empregos não funciona, em São Paulo, pelo menos, auditores da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE/SP) têm procurado monitorar o sistema desenvolvido pela Missão Paz e tomar medidas preventivas.
O nome e CNPJ de todas as empresas que contrataram imigrantes foram encaminhados ao órgão. A partir de tais dados, o MTE realizou rodas de conversas com 98 empresas que contrataram estrangeiros. “Nosso papel é orientar, mas cabe ao MTE fiscalizar”, resume Parise.
Ele estima que dos estrangeiros acolhidos na Missão Paz, 80% são haitianos e 20% de outras nacionalidades, com destaque para nigerianos, camaroneses, angolanos e sírios.
A presença de senegaleses é significativa.
De todos, metade fica na cidade e metade segue para destinos como Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
A estimativa bate com levantamento recentemente publicado pelo Observatório de Imigrações, que indica que a maioria dos estrangeiros registrados com carteira de trabalho está nas regiões Sul e Sudeste.

Imagem: Reprodução/OBMigra
Entre os setores que mais têm contratado estão construção civil, restaurantes, limpeza, serviços em gerais, e, mais recentemente, mercados. Além da Missão Paz, mais dois centros têm recebido estrangeiros em São Paulo. O aumento do número de imigrantes motivou a criação nos últimos meses de mais dois abrigos na cidade, um pelo Governo Estadual e um pela Prefeitura. Pelo Governo Federal, a principal iniciativa recente foi a concessão de Bolsa Família para imigrantes em situação vulnerável.

“Tem gente que acha que o Haiti é na África”

Aos 29 anos, o haitiano Jean Monfiston trabalha para preservar a cultura de seu país e garantir melhores condições de vida em Santa Catarina aos conterrâneos que buscam refúgio pós-terremoto

O haitiano Jean Monfiston

Por Sabrina Duran (texto e fotos)

Enviada especial a Chapecó (SC) – “Eu não lembro por que me atrasei. Eu estava em casa. Acho que talvez tenha tido vontade de cozinhar de novo, porque eu gosto de cozinhar. Ou talvez o táxi não chegou na hora, ou me enganei com o horário.” Jean não tem clareza sobre o fato ou sequência de fatos que o fizeram perder o voo que o levaria de volta de Quito, no Equador, ao Cabo Haitiano, norte do Haiti, onde morava. Clareza daquele dia ele só tem uma: “foi a mão de Deus” que o impediu de estar em sua cidade natal naquele momento.

12 de janeiro de 2010, dia em que o haitiano Jean Monfiston, com 24 anos à época, perdeu o voo de volta ao seu país, também foi o dia em que um terremoto de magnitude 7 devastou o Haiti, matando cerca de 200 mil pessoas, ferindo e mutilando outras 300 mil e deixando um milhão e meio de desabrigados. Jean perdeu três primos na tragédia. Sua esposa, Staccy Derogene, também com 24 anos em 2010, escapou por pouco. Ela estava em casa, na capital Porto Príncipe, quando sentiu a terra tremer. Foi o tempo de sair da casa e a estrutura desabar.

Jean acredita que se ele estivesse em sua cidade, trabalhando durante aquela terça-feira como em tantas outras que passou na Rádio e TV Venus, onde era cinegrafista, teria morrido, assim como um colega seu.

Aliás, foi graças ao seu trabalho na Venus que Jean escapou do desastre: a viagem ao Equador havia sido um presente do chefe, que o considerava um bom funcionário e por isso decidiu recompensá-lo com um período de férias pós-Natal no país sul-americano.

Ainda em Quito, o jovem haitiano só conseguiu contato com a família por telefone quase três semanas depois do terremoto. Soube, pelo noticiário e pelos familiares, que seu país estava devastado.

“Não havia nenhuma esperança”, ele diz. Desde aquele voo perdido, Jean nunca mais voltou ao Haiti. Ficaram por lá a mãe, três irmãs mais novas, o trabalho como cinegrafista e o curso de Engenharia Civil recém-iniciado.

Hoje, quase cinco anos depois da tragédia, ele continua vendo a providência divina na realidade que o cerca: após uma miríade de dificuldades, Jean Monfiston tornou-se uma das principais lideranças e porto-seguro dos seus conterrâneos que todos os meses, às dezenas, deixam a desesperança no Haiti para tentar vida nova no Brasil.

Até o final de 2014, cerca de 50 mil haitianos terão cruzado as fronteiras brasileiras com o Peru e Equador após mais de duas semanas de viagem em busca de trabalho e estudo no Brasil.
A estimativa é dos professores Duval Fernandes e Maria da Consolação de Castro, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), que realizaram a pesquisa intitulada “Estudos sobre a Migração Haitiana ao Brasil e Diálogo Bilateral”.
Os destinos preferidos dessa população são as cidades de São Paulo (SP), Manaus (AM), Porto Velho (RO), Curitiba (PR) e Caxias do Sul (RS), nas quais trabalharão na construção civil e indústria de alimentos, majoritariamente. Com Jean Monfiston não foi diferente.Primeiro, ele viveu dois anos na capital equatoriana. Lá, trabalhou como guardador de carro, motorista de táxi e ajudante na construção civil. Nesta última função, trabalhava de 10 a 12 horas por dia e ganhava 35 dólares por mês − menos de R$ 100 em valores atuais. Isso sem falar na instabilidade do emprego. “Você podia estar empregado hoje, amanhã não estava mais”, conta Jean.
Após ouvir relatos de conterrâneos que já estavam no Brasil sobre a possibilidade de melhores salários e estabilidade empregatícia, Jean decidiu, em 2012, empreender viagem ao país vizinho. E não iria só, mas acompanhado da esposa Staccy, que deixou o Haiti naquele mesmo ano para reencontrá-lo pela primeira vez desde o terremoto.
“Minha esposa e eu demoramos 20 dias para chegar. Pegamos um ônibus do Equador ao Peru por cinco dias. Depois outro ônibus até Lima por mais dois dias. Depois ônibus e avião para pegar a última saída do Peru. De lá pegamos um barco que correu um dia inteiro até Tabatinga [cidade do Amazonas que faz fronteira com Peru e Colômbia].”

Após a espera em Tabatinga (AM), Jean hoje vive no andar de baixo desta casa, em Chapecó (SC)

Segundo a pesquisa realizada pelos professores Fernandes e Maria da Consolação, após a longa jornada até a fronteira com o Brasil, há ainda outro demorado processo que estrangeiros precisam enfrentar para regularizar a permanência no país. “O ponto de partida é a solicitação de refúgio apresentada à autoridade migratória nas cidades fronteiriças.
A abertura desse processo leva à emissão de um protocolo que permite ao imigrante a obtenção de carteira de trabalho e CPF provisórios, enquanto a solicitação de refúgio é analisada pelo Conare (Comitê Nacional para os Refugiados).
Tais documentos são essenciais para o ingresso do imigrante no mercado formal de trabalho e o envio de remessas”, diz a pesquisa.
Em função do terremoto e da crise social que assola o país, desde janeiro de 2012 os haitianos têm sido beneficiados automaticamente pela Resolução 97 do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e obtido vistos humanitários para residência permanente.Apesar da determinação oficial, Jean e Staccy contam que passaram quatro meses em Tabatinga à espera do protocolo.
O casal alugou uma quitinete e contava com as remessas de dinheiro que seus familiares enviavam desde o Haiti. “Havia uns 800 haitianos em Tabatinga, que é uma cidade pequena, de fronteira, não tem trabalho. Eu mesmo trabalhei só 15 dias lá como pedreiro. Tinha dias que a gente misturava água e sal pra beber e passar o dia todo. Foi o momento mais difícil pra mim”, conta Jean.
Quando saiu o protocolo, o casal empreendeu nova viagem. Durante cinco dias, subiram o rio para aportar em Manaus, onde conseguiram o visto até 2021. Na capital do Amazonas viveram cerca de um ano. Lá, Jean trabalhou em uma metalúrgica fabricando peças de barco e em uma mina de gás, separando lixo para alimentar a jazida.
Staccy, que tem curso técnico em informática, não trabalhou porque engravidou. Christopher, primeiro filho do casal, tem documento manauara.
Em 2013, Jean recebeu notícias de um primo da esposa que trabalhava em uma empresa de Itajaí, no litoral catarinense. “Ele disse que lá era bom, que tinha emprego.
Então juntamos dinheiro e fomos”, conta o haitiano. Na cidade de 180 mil habitantes, ele começou trabalhando numa olaria. Ficou só 15 dias porque não aguentou as altas temperaturas do forno de cozimento dos tijolos. Saiu a buscar outro emprego. Viu o anúncio em uma construtora e pediu trabalho. Conseguiu uma vaga em Balneário Camboriú, cidade vizinha a 10 km de distância.
Outra vez, Jean e Staccy fizeram as malas e partiram em busca de melhores condições de vida.Foi em Balneário que Jean começou a entender a importância de transformar sua experiência em ajuda solidária aos conterrâneos que pouco a pouco escolhiam o Estado do Sul como destino.
“Quando cheguei em Balneário Camboriú tinha só oito haitianos. Eles começaram a vir, a crescer, e não tinham lugar para ficar. Eu chamei alguns amigos e sugeri que montássemos uma associação para ajudar a conseguir lugar pra morar, emprego, porque todo dia chegava um grupo.” Jean e outros três amigos montaram a Associação de Haitianos de Balneário Camboriú, que presta serviços essenciais à vida de quem chega ao país sem falar português e sem conhecer os trâmites burocráticos para fazer um documento ou alugar uma casa, por exemplo.
“Se eles precisam ir à Polícia Federal a gente leva e ajuda a traduzir; se precisam procurar um emprego ou lugar pra morar, também. A gente só não ajuda com dinheiro porque não tem”, explica Jean.
O corpo diretor da associação é escolhido por meio de voto, as verbas de manutenção saem do bolso dos próprios dirigentes da entidade e a sede física é a casa do presidente.
Duas vezes por mês o grupo se reúne para conversar e entender quais os desafios e necessidades dos haitianos na cidade, e assim propor soluções.Com a chegada diária de novos grupos de haitianos ao Estado de Santa Catarina, foi necessária a criação de associações em outras cidades. Itajaí, Itapema e Navegantes já foram contempladas, mas ainda não têm sede física. Agora é a vez de Chapecó, no oeste catarinense, para onde Jean e a esposa se mudaram há cerca de sete meses.
Segundo estimativas de Jean, Santa Catarina conta hoje com cerca de cinco mil haitianos, dos quais três mil estão em Chapecó trabalhando na linha de corte de aves, suínos e bovinos da Aurora e BRF (fusão entre Sadia e Perdigão), duas gigantes do setor alimentício.

Cultura e resistência
Graças ao seu trabalho na associação em Balneário Camboriú, Jean Monfiston conseguiu um emprego como tradutor na Aurora, em Chapecó.
Como ele mesmo explica, atua como “a segunda boca” dos haitianos que trabalham na empresa e ainda não falam português, e dos brasileiros que trabalham na administração da Aurora e que não falam francês nem crioulo haitiano, segunda língua oficial do país caribenho.
“Começo a trabalhar todo dia às 4h40 e vou até as 14h40. Quando eles precisam conversar com os haitianos, falam comigo primeiro. Se tem que fazer um treinamento eu ajudo. Eu também dou aula de português para os haitianos pra ajudar a falarem um pouco”, explica Jean, que além do francês e crioulo também fala o espanhol que aprendeu nas ruas de Quito, e o português que aprendeu em um curso de dois meses promovido por uma igreja de Tabatinga durante sua espera na cidade fronteiriça e que segue aperfeiçoando no contato com brasileiros e em cursos online.
Na casa alugada na rua Quilombo, onde Jean mora com a esposa e o filho Christopher, de quase três anos, funciona também uma lan house que ele montou com computadores comprados a prazo para uso da comunidade haitiana e que serve como sua segunda fonte de renda. Jean também reservou um espaço do imóvel para montar a sede da associação de Chapecó. “Aqui virou um ponto de referência e de encontro dos haitianos.
Trabalho com eles das três da tarde às onze da noite, sem parar. Atendo de 20 a 30 pessoas por dia”, relata Jean, que deixa a porta da casa sempre aberta.
Enquanto fazíamos a entrevista para este perfil, mulheres e homens entravam e saíam o tempo todo, sempre com alguma dúvida ou demanda por pequenas ajudas. Em determinado momento, Jean precisou parar a conversa para atender um conterrâneo. Uma ajuda emendou na outra, e ele precisou sair com o carro. Voltou uma hora depois para finalizarmos. “Sabe aonde fui? À rodoviária levar aquele haitiano. Ele está voltando para Balneário Camboriú, não gostou de trabalhar aqui”, contou.Também naquele espaço Jean Monfiston dá aulas de português a três haitianos e de francês a três brasileiros. Planeja dar aula de crioulo haitiano aos brasileiros como uma forma não apenas de melhorar a comunicação com os locais, mas também disseminar a cultura haitiana. “Tem gente que acha que o Haiti é na África. As pessoas precisam saber quem somos, o que fazemos. Nos Estados Unidos e no Canadá há associações de haitianos, são importantes lá. A associação é para apresentar a cultura e defender o povo haitiano”, ele diz.
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Jean conversa com compatriotas

Mulheres no comando
“L’Union fait la force.”
A união faz a força, diz a bandeira do Haiti.
É no lema nacional que Jean se inspira para continuar o trabalho de aproximação e empoderamento dos haitianos em Santa Catarina. Mas nem tudo é unanimidade.
Há os que se ressentem com sua partida de Balneário Camboriú e reprovem sua atitude; há ainda os que desconfiam do seu trabalho solidário. “Tem gente que diz que montar associação é coisa de gente que só quer ganhar dinheiro se aproveitando dos outros. Tudo que eu faço eu faço com meu dinheiro.
Eu comprei um carro a prazo que custou R$ 13 mil, sou eu que estou trabalhando pra pagar. Eu fui com meu carro ajudar os haitianos, quebrou o motor, paguei R$ 3.500 pra arrumar do meu bolso. Eu não tenho recurso. Eu achava que ia descansar um pouco em Chapecó, mas é mais complicado ainda.
Já está se articulando com as mulheres da comunidade para que estas organizem atividades e eventos relacionados às suas necessidades específicas, como palestras sobre saúde da mulher. Um dos projetos previstos é a criação de um restaurante de cozinha haitiana aberto a todos, haitianos e brasileiros.
A iniciativa tem o objetivo não só de disseminar a cultura do país, mas também de garantir emprego e renda às mulheres, que vêm encontrando dificuldades para encontrar trabalho na indústria alimentícia da região devido à alta demanda por emprego e contratação majoritária de homens nas linhas de corte. Segundo Jean, dos 140 haitianos que trabalham na Aurora, apenas 38 são mulheres. “Isso é uma coisa que estamos tentando mudar.
Quando o haitiano vai procurar emprego nesses lugares, a única coisa que perguntam é se a pessoa tem problema para trabalhar com faca. A gente sabe fazer mais que isso.
A ideia é mesclar músicas haitianas e notícias da comunidade local e, talvez, conseguir um intercâmbio com alguma rádio do Haiti para transmitir localmente informações de seu país. “Não sei já te contei isso, mas meu sonho é fazer um filme, uma história real de um haitiano que está fora do Haiti quando acontece o terremoto e passa a viver em outro país. Estou escrevendo o roteiro agora. Vai ter atores haitianos e brasileiros. Não tenho como fazer o filme, vou precisar de parcerias com empresas de ônibus, de avião, de roupas, com a embaixada haitiana em Brasília. Quem sabe se alguém ler isso não surge alguma oportunidade?”, diz Jean, articulando novas formas e significados ao sismo que alterou para sempre sua rota.
Fonte: https://goo.gl/Rrg3vX
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